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  Mosaico: compulsão, entendimento e paixão 

Fazer mosaico é um impulso primário em todo e  qualquer processo civilizatório, assim como fazer pintura rupestre ou cerâmica  (funerária ou com qualquer outra função utilitária). Nossos índios, assim como  os norte-americanos, desde sempre realizaram arte plumária através da agregação  de penas de aves nos arranjos para cocares ou mantos. É conhecido o caso de Dom  Pedro II, que usava uma pelerine formada por papos de tucanos sobre as vestes  imperiais nas cerimônias mais pomposas num tempo em que não havia pudores sobre  o que era ecologicamente correto. Na América pré-colombiana já se empregava  pedras duras ? turquesas, jades, ametistas, esmeraldas e ouro ? para cobrir  crânios e objetos cerâmicos de uso religioso ou mágico. Aborígines da Nova Papua  fazem, desde tempos imemoriais, arranjos musivos com conchas catadas nas areias  dos mares do sul, transformando-as em adornos ou objetos decorativos.

Enfim, fica claro que o instinto para reunir pequenas  peças similares e transformá-las num terceiro objeto traduz um gesto elementar,  natural, próprio do alvorecer da aventura do homem na Terra. De forma que a  questão da precedência, ou seja, da identificação do mosaico primordial é  simples exercício formal na catalogação de especialistas, geralmente ocidentais,  que costumam atribuir a uma obra encontrada na Suméria há 5.500 anos a.P. (antes  do Presente) o galardão de representar o primeiro mosaico na história do homem.

Rapinado pelos ingleses durante o período de ocupação  colonial do Iraque, o Estandarte de Ur é formado por peças trabalhadas em  arenito vermelho, lápis lázuli, mármores e conchas. A obra retrata os guerreiros  em marcha e depois o retorno com o botim, seguido de comemoração com banquete e  acompanhamento musical. Provavelmente é a primeira ilustração de ação bélica na  história da humanidade.

Os ingleses retiraram a peça da Mesopotâmia e a  levaram, em 1930, para o  British Museum  de Londres, onde sua exposição atrai  visitantes do mundo inteiro. É uma referência para a história da arte, mas sua  ocorrência na Suméria é fato isolado, isto é, a obra não gerou desdobramentos  nem proporcionou uma escola de difusão da técnica.

Isso só vai ocorrer quando os gregos, ali pelo século  III a.C. começam a usar seixos rolados para pavimentar os pisos. A prática  nasceu em Pella, na Macedônia, terra que viu nascer Alexandre, o Grande. Deve-se  a ele o estabelecimento em Alexandria, no Egito, de um centro de artesãos  mosaicistas. O uso de pisos em mosaico generalizou-se e ganhou mais impulso  quando a descoberta do ferro viabilizou o corte das pedras com talhadeiras,  refinando arte e ampliando seu potencial. Do seixo passou-se ao corte de  mármores e de outras pedras, as quais os romanos iriam ajuntar os esmaltes, que  faziam dos mosaicos um arco-íris de luminosidade pictórica.

Na mão dos romanos, a arte musiva cresceu e  multiplicou-se junto com a expansão do Império. Júlio César levava artesãos  mosaicistas em suas campanhas para confeccionar o piso da tenda que ocupava. No  século IV, com a conversão de Constantino, e a transferência do poder para  Bizâncio (depois Constantinopla, hoje Istambul), a arte musiva tornou-se  instrumento de evangelização e difusão do cristianismo, subindo às paredes e às  cúpulas das igrejas, querendo alcançar o céu. A razão é simples: A nova estética  recusava a estatuária pagã dos deuses musculosos e sensuais, preferindo as  figuras chapadas nas paredes que narravam as cenas bíblicas em representações  que sublimavam as curvas e os volumes para engrandecer os efeitos místicos  proporcionados pelo jogo de luz, brilho e cor.

O Império bizantino projetou o mosaico a Oriente,  levando a linguagem das tesselas até os confins da Rússia, mas, como nada neste  mundo é eterno, o mosaico acabou perdendo expressão, especialmente no período do  Renascimento, no qual não deu o ar de sua graça. Tornara-se mera cópia da  pintura e, como tal, entrou em crise de identidade e dela nunca mais saiu. Ou  melhor, saiu, mas, é forçoso admitir, tem recaídas freqüentes.

continua...

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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