Por razões de modismo, o mosaico saiu de cena nos anos seguintes, abandonando as paredes, mas não os pisos das calçadas em pedra portuguesa que continuaram se espalhando por todo o país. Até o gravador Lívio Abramo a ela aderiu, quando se pensava que ele só fazia gravura. A nova onda que traz o mosaico ao seu lugar de arte complementar à arquitetura começa há coisa de dez anos, em meados da década de 90, pela força de nomes como Poty Lazarotto no Paraná, Tomie Ohtake e Cláudio Tozzi em São Paulo, e Glauco Rodrigues (falecido a 19 de março passado), no Rio de Janeiro e em Salvador. A eles veio juntar-se o dramaturgo e artista múltiplo Ariano Suassuna, em Recife, que, com a parceria do genro, Guilherme da Fonte, tem construído painéis e monumentos em pedras de mármores e granitos (vide Painel no Aeroporto de Campina Grande e piso na Casa da Alfândega, no Recife).
|
|
Painel Aeroporto de Campina Grande - PE
fotos:Dida Sampaio ("O Estado de São Paulo") |
|
Foto anônima - Piso da casa da Alfândega - Recife |
São nomes importantes e representativos, mas por trás deles há uma legião de artistas e artesãos sintonizados com a retomada do movimento musivo e que também começa a mostrar sua disposição de associar seu talento ao crescimento e à afirmação do caminho das tesselas. Ou seja, além dos artistas já reconhecidos, há uma constelação de brasileiros envolvidos e cooptados pela arte musiva de forma apaixonante e conseqüente, que dão sentido ao fenômeno. Alguns vêm do anonimato, mas logo projetam-se na participação em exposições, feiras, sites na Internet, lojas, galerias e ateliês. A linguagem não nega nada a quem deseja adotá-la. E retribui com generosidade e encantamento a quem a ela se dedica com paciência e persistência. Mosaico virou modelo de comunhão e entendimento. Tanto pode ser usado em programas sociais de redenção de adolescentes em crise como congraçamento e troca de informações e de emoções. É assim que se dá por exemplo nos grupos de discussão que animam e sustentam o entusiasmo de quem faz mosaico , assim como abrem espaço para os que querem começar.
É uma confraria cheia de graça, amor e descoberta, que se renova todos os dias na troca de mensagens e de afagos. E onde não há exclusão. Pelo contrário, a mesma certeza de que o sol vai nascer no dia seguinte conduz à convicção de que novamente estaremos no mesmo espaço de amizade, entendimento e criatividade. Como acontece agora, quando se coloca aqui a primeira pedra de um projeto novo, o site do Grupo Mosaico Carioca.
Não se trata de fato isolado, mas sim fruto da conexão, da sintonia e da obra coletiva de um grupo antenado com o vigor de uma arte muito antiga que nos convoca para continuar a arqueologia no interior desse veio nunca exaurido de instinto e beleza: o fazer musivo.
H. Gougon - 31 de Março de 2004